Nas mãos de Deus
às
21h49 - por
José Nilton Dalcim
A frase que mais me chamou a atenção nesta quarta-feira foi a do técnico-tio Toni Nadal. Ele literalmente colocou nas mãos divinas a possível volta de Rafael Nadal às quadras. "A recuperação durará quanto Deus quiser", frisa TenisBrasil em nota desta noite, transcrevendo entrevista do treinador a uma rádio espanhola.
Embora existam avaliações desencontradas, o que parece certo é que a tendinite crônica nos joelhos de Rafa gerou agora "problemas complementares", nas palavras do próprio Toni. Por isso mesmo, haveria recomendação médica de uma parada total de três meses, ou seja, entre julho e outubro.
Como estaríamos no meio da temporada de quadras duras e fechadas, nada boas para um joelho debilitado, sinceramente duvido que Nadal se sacrifique no circuito, talvez reservando energia para uma eventual decisão de Copa Davis, no final de novembro. No máximo, uma presença de aquecimento no Finals de Londres, onde jogaria pelo menos três partidas (da fase classificatória) e assim pegaria ritmo de competição.
De qualquer forma, fica claro que a situação física do canhoto espanhol se agravou depois do saibro. Ele já não jogou bem em Halle e teve atuações sofríveis em Wimbledon, incluindo aquela em que Thomaz Bellucci poderia muito bem ter saído com um resultado positivo. Esta já se transforma não apenas na mais longa parada de Nadal desde seu auge, mas também a mais dolorosa e crítica, tendo perdido as Olimpíadas, dois Masters e o US Open.
O ranking? Não importa. Se Andy Murray cumprir sua obrigação, deverá ultrapassá-lo, mas tenho certeza de que o escocês não irá comemorar isso como um grande feito.
Enquanto isso, os três favoritos iniciaram a campanha em Cincinnati sem qualquer novidade. Atuações tranquilas e aparentemente sem dores para Murray e um pouco mais trabalhosa para Djokovic, que poderia ter economizado mais no físico. Federer passeou e fez um ótimo treino de devoluções.
A novidade foi a queda de David Ferrer, numa ótima atuação de Stanislas Wawrinka. Ele, aliás, pega Kei Nishikori no que pode ser um ótimo jogo, assim como Berdych x Raonic e até mesmo Federer x Tomic. Se jogarem o normal, Djokovic atropela Davydenko e pega depois Cilic, enquanto Murray tira Chardy e deve ter Del Potro nas quartas.
Problema de base
às
13h56 - por
José Nilton Dalcim
Novak Djokovic ganhou Toronto, acabou com pequeno jejum de títulos e ficou mais do que nunca na briga pela liderança do ranking, mas eu preciso começar este Blog falando de algo mais abrangente: o esporte. Londres terminou e fico com aquela sensação de que Jogos Olímpicos deveria ser assunto obrigatório nas escolas.
Porque antes de tudo é uma lição de vida. Aprende-se que vale todo o esforço para se obter o máximo possível e que a medalha jamais pode ser o objetivo final. Um quinto lugar também é honroso, assim como chegar numa final olímpica ou muitas vezes simplesmente competir, como filosofava Pierre de Coubertain. Subir ao pódio é recompensa.
Também são múltiplas cenas de respeito às regras e ao árbitro, ainda que muitas vezes não se concorde com eles. É preciso lutar com todas as forças para vencer, assim como ser nobre e aceitar uma eventual derrota diante de um adversário superior. O britânico que fica eufórico com o bronze nos saltos ornamentais, o alemão que vai abraçar com enorme sorriso o francês que acabou de lhe tirar o ouro no salto com vara, o corredor de Trinidad que troca o número com o heróico sul-africano que assombra o mundo com sua velocidade em pernas artificiais. Por que o esporte não é levado a sério neste país?
O brasileiro tem vocação para o esporte, mas não lhe dão oportunidade na escola, nem na universidade. Erramos pela base e depois ficamos a procurar explicações para violência e falta de sociabilidade. Não falta verba para o esporte no Brasil, o seu emprego que está absolutamente equivocado. O Comitê Olímpico só quer saber do alto rendimento, que afinal lhe garante visibilidade, e destina fortunas para Confederações mal administradas que novamente só irão querer investir no atleta de ponta.
Praticamente ninguém quer o trabalho árduo da base, que na maioria das vezes não rende votos, nem manchetes. Os que fizeram isso são os únicos que colhem frutos com frequência. Todo mundo quer ser tão bom quanto o vôlei, mas quem realmente investiu no processo formativo? Campeão ou vice, ouro ou prata ou bronze, o vôlei está em evidência há exatos 30 anos, renovando-se continuamente. Não é só talento. É base.
Dito isso, voltemos a Djokovic e seu trabalho bem feito em Toronto. Cumpriu a primeira terça parte de sua árdua tarefa no verão norte-americano. O resultado imediato disso é que recuperou a confiança, jogou uma belíssima final contra Richard Gasquet e se mantém nos calcanhares do número 1. Se ganhar Cincinnati - não vejo nada impossível nisso -, pode até voltar à liderança, embora certamente o que mais importa nesta altura é chegar muito bem no US Open.
Cincinnati marca também a volta de Roger Federer. O quanto a derrota nos Jogos Olímpicos o afetou? O sorteio da chave ajudou muito e ele deve ter poucas dificuldades para chegar pelo menos na semi. Bem mais interessante será observar Andy Murray, que não pode se dar ao luxo de ter outra semana sem vitórias como foi no Canadá. Se quer ter sucesso no Grand Slam norte-americano, precisa embalar agora.
Misturando Murray e Londres-2012, importante contar que a conquista do escocês nas Olimpíadas, em cima de Federer, foi eleita um dos 20 melhores momentos da rica competição pela agência de notícias Reuters. Não é pouca coisa.
Novo calendário da ATP deve mexer com torneios brasileiros
às
23h20 - por
José Nilton Dalcim
A Associação masculina prepara mudanças ainda mais radicas para o circuito em 2014. As mexidas começaram nesta temporada, com a tentativa de encurtar a temporada, agora com encerramento no começo de novembro, e a já anunciada semana extra entre Roland Garros e Wimbledon, que só deve acontecer em 2015. Mas os estudos da entidade para 2014 prometem modificar ainda mais com o calendário.
E isso pode afetar diretamente o Brasil. Uma das sugestões é que o circuito sul-americano de saibro, disputado atualmente entre fevereiro e março, bem no meio da fase de quadras sintéticas da Oceania, Europa e EUA, seja deslocado para o final do segundo semestre, provavelmente de outubro para a frente. Com isso, não haveria um hiato na temporada de piso sintético, que seria estendida depois do Aberto da Austrália até Indian Wells.
A proposta deve agradar a todos, inclusive o Brasil Open. Os tenistas que quisessem vir à América Latina não teriam de se readaptar ao saibro, assim como os promotores teriam maior facilidade para negociar a presença de bons nomes que quisessem encerrar a temporada e lutar por pontos por aqui. Aliás, ainda não está totalmente descartada a possibilidade de o circuito sul-americano trocar do saibro para o sintético.
Tal modificação deixa duas alternativas para o ATP 500 do Rio de Janeiro, que entrará no calendário em 2014. Ele tanto poderá ser integrado ao circuito sul-americano de final de ano, como quarta perna (afinal, Acapulco deve mudar para o piso duro e será mantido em março, antes de Indian Wells), ou até pode acontecer em fevereiro, em quadra dura, antecedendo o próprio ATP 500 mexicano, como acontecia antes com Memphis.
Dessa definição depende a disputa do WTA do Rio, que a entidade feminina deseja ser simultâneo com o evento masculino. O outro WTA, obtido pela Confederação Brasileira, já estreia em 2013 e tem grande chance de ser disputado no saibro de Florianópolis.
Que fase - O norte-americano Donald Young, que um dia foi esperança entre a nova geração, perdeu em Montreal seu 16º jogo consecutivo, ou seja, não vence desde fevereiro. Uma façanha que ninguém quer repetir. "Todo mundo comenta sobre isso no vestiário", contou o australiano Bernard Tomic, que encerrou em Toronto uma série própria negativa de cinco derrotas. "É duro para ele. Quando você entra num buraco desses, fica difícil sair. Precisa de sorte". Young esteve bem perto de ganhar de Jeremy Chardy na segunda-feira, quando marcou 6/3, mas perdeu o tiebreak do segundo set e aí levou 6/0.
Mais US Open - O Tennis Channel ganhou uma batalha jurídica com a empresa de tv a cabo Comcast, que se recusava a incluir o canal em sua grade que tem a NBC Sports. Com a decisão favorável, a expectativa é que o Tennis Channel chegue a cerca de outros 18 a 20 milhões de residências. Atualmente, o canal exclusivo para o tênis já chega a 34 milhões de lares norte-americanos.
O que vamos fazer em 2016?
às
09h58 - por
José Nilton Dalcim
Para desespero de Fernando Meligeni (e, posso apostar, da Rede Globo), o futebol masculino vai mesmo à final, o vôlei se mantém vivo, a praia está bem perto do ouro e o basquete mascullino tem chances de uma campanha histórica. A vocação do esporte brasileiro continua a ser as modalidades coletivas e parece depender delas para atingir a meta mínima e modestíssima de 15 medalhas prevista pelo Comitê Olímpico. São dois quadros preocupantes para 2016.
Até aqui, o grande momento brasileiro em Londres foi certamente a inesperada conquista de Arthur Zanetti na ginástica olímpica, sem desmerecer é claro a atuação brilhante da judoca Sarah Menezes. A diferença é a bagagem internacional e principalmente a dificuldade. Apesar do sucesso das meninas, a ginástica continua sendo um lugar em que a tradição pesa na pequena mas importante subjetividade que sempre existirá no julgamento dos movimentos. Sem falar que a argola está para o masculino como a trave para o feminino.
Zanetti também deu uma lição de confiança e competência. Era o último a competir na final e tinha que tirar uma nota incrivelmente alta para superar os 15.800 do chinês. Precisava ser perfeito. Dá para ter mais pressão? Ainda que muitos aleguem que a ginástica é um esporte de repetição e força, existe o componente emocional e foi aí que ele realmente brilhou. Amarelou, mas no excelente sentido da palavra. Ah, e sem incentivo de sua Confederação ou do COB. Até pouco tempo, ele sequer tinha argolas de primeira linha para treinar. E patrocínio pessoal veio há dois meses.
E o que tudo isso tem a ver com o tênis? Muito. Porque são histórias de dificuldade, lições de superação e grande esforço individual que já vimos antes nas nossas quadras. Ainda que a Confederação de Ginástica tenha um papel decisivo na virada que a modalidade viveu no Brasil na última década, ainda é a dedicação pessoal e familiar que leva ao sucesso. E importante insistir naquilo que o futebol tanto nos emburrece: não valem apenas os títulos, mas também a prata e o bronze. Quem assiste aos Jogos, percebe o valor que se dá a uma disputa de terceiro lugar. A própria Vika Azarenka chorou de emoção ao garantir a sua em simples.
Os Jogos de Londres também mostram que o esporte brasileiro está bem atrasado na preparação para 2016. Um artigo de Ricardo Setyon, da Trevisan Escola de Negócios, conta como o ciclismo britânico virou a mesa. Mágica? Não, seriedade. "Através de um sólido investimento, criou-se uma equipe de olheiros a partir de um sistema de escolha entre os principais treinadores do país e de ex-atletas. A procura por talentos se dividiu por faixas de idade: grupos jovens de 10,12 e 14 anos. Por meio de exames e análises foi montada a primeira turma de atletas da equipe britânica de ciclismo. A partir daí, começou a tomar forma o trabalho, com atenção a todos os detalhes, desde a nutrição até a administração e o treinamento. Todos os atletas receberam condições especiais de moradia, ajuda de custo, estudos, alimentação, com apoio de psicólogos e técnicos, em centro de alta tecnologia montado na cidade de Birmingham", nos conta o jornalista. "O sucesso está sendo colhido até pelo comércio. A venda de bicicletas e equipamentos ligados ao ciclismo aumentou desde janeiro de 2012 mais de 160%, em comparação ao mesmo período de 2011".
Os britânicos também repetem o que se viu com o esporte espanhol e chinês, ao sediarem seus Jogos, conforme reportagem de segunda-feira da Folha de S.Paulo. Em 1996, viveram um fiasco incrível em Atlanta, com uma única medalha de ouro, e a partir daí, financiada pela verba das loterias, a Associação Britânica passou a investir diretamente no desenvolvimento no esporte e não apenas em viagens, algo que o COB poderia muito bem aprender. Com US$ 100 milhões, saltaram para 11 ouros em Sydney e, com outros US$ 50 milhões, chegaram a nove em Atenas. Ao ganhar a sede olímpica em 2005, o governo passou a colocar US$ 150 milhões por ano e o resultado foram 19 ouros em Pequim. Até ontem, já eram 22 dentro de casa.
Enquanto isso, vamos vivendo de heróis, futebol e vôlei.
Murray sobe degrau, Serena é um 'dream-team'
às
15h06 - por
José Nilton Dalcim

A profecia, mais que acertada, de que Andy Murray iria se coroar nas centenárias quadras de grama do All England Club se concretizou. O título chegou, a bem da verdade, quatro semanas atrasado. Mas veio, e não deixou qualquer margem de dúvida sobre a capacidade do escocês sobre esse tipo de superfície.
Qual adversário mais difícil de se ganhar na Quadra Central do que Roger Federer? O heptacampeão de Wimbledon, o número 1 do mundo, o recordista de troféus sobre a grama, o homem que mais venceu Grand Slam na história.
Assim como havia feito por um set e meio há pouco menos de um mês, Murray foi frio, mesclou ataque e contragolpe, sacou muito bem e soube explorar as falhas do adversário sem dar brechas. A diferença é que desta vez ele não desacelerou.
Federer, a bem da verdade, jogou mal. E isso não justifica a derrota, mas o placar. Sua bola esteve sempre muito curta, a precisão do forehand ficou devendo e novamente errou demais nos voleios (como já acontecera na semifinal). Murray utilizou cada uma dessas brechas, aplicando passadas perfeitas ou explorando winners. E se aplicou no saque, para não permitir reações como a de Wimbledon. Pela primeira vez em suas nove vitórias sobre Federer, o fez numa melhor de cinco sets, algo que também todo mundo duvidava.
Não resta a menor dúvida de que o escocês subiu mais um degrau, e dos grandes, em sua ainda promissora carreira. Não no aspecto técnico, que se reconhece excelente, mas na disciplina tática e na postura mental. Era previsível que a final de Wimbledon lhe conferisse confiança e foi isso o que demonstrou nas Olimpíadas, onde eliminou nada menos que os dois melhores do mundo rumo ao ouro. Jogando dentro de casa, o que para ele sempre foi um peso, entrou na lista dos heróis nacionais. Agora, pode jogar cada vez mais solto.
O suíço não fez um grande torneio e ele próprio admitiu ter tido sorte ao superar Juan Martin del Potro na sexta-feira. A impressão, aqui de longe, é que teve dificuldade em administrar a pressão natural que colocou sobre si de tentar o ouro inédito e tão exclusivo. Ele sabe que 2016 não está apenas muito distante para seus virtuais 35 anos, mas que a maior chance era agora, sobre a grama e como número 1.
Embora sejam circuitos com realidades diferentes, Serena Williams sim cumpriu à risca o que se esperava dela. Talvez tenha até exagerado na forma humilhante com que despachou as duas primeiras do ranking, que juntas não ganharam mais que quatro games. Serena é o 'dream-team' do tênis sobre grama. Imbatível, absoluta, perfeita, inigualável. Espetacular vê-la no auge de sua forma aos 30 anos, vindo de tantos problemas físicos e pessoais ao longo da carreira para reescrever a história.
O ranking se agita
Ao se colocar a 785 pontos de Nadal na lista desta segunda-feira, Murray abre a perspectiva matemática de subir ao terceiro posto caso vença o Masters de Toronto na próxima semana. É uma tarefa difícil, apesar do torneio esvaziado, porque ele vem de uma maratona de jogos e emoções em Londres. Logo em seguida, defenderá o título de Cincinnati, um torneio que deve contar com a volta de Rafa e Federer. De qualquer forma, o clima esquentou. Federer manteve o número 1, a 165 pontos de Djokovic, que precisa repetir 1.600 pontos nos dois Masters, além dos 2 mil do US Open. Será que o britânico entra na briga para 2013?
Os donos da grama
às
18h48 - por
José Nilton Dalcim
Roger Federer e Andy Murray, de novo. Serena Williams contra Maria Sharapova, revivendo 2004. Quatro jogadores com predicados reconhecidos sobre a quadra de grama, como o torneio olímpico exigia. E quatro atletas buscando seu sonho particular, já que pelo menos dois deles, os trintões, devem estar disputando os Jogos pela última vez.
Federer e Juan Martin del Potro travaram uma batalha incrível. Jogando seu melhor tênis sobre a grama, o argentino dominou o primeiro set e se colocou bem perto da vitória no segundo. Mas Roger é sempre Roger quando se trata de Quadra Central e ele literalmente arrumou um jeito de reagir. A bem da verdade, fez um primeiro set fraco, estranhamente defensivo, e à medida que o adversário ganhou confiança ficou à mercê do espetacular forehand de Delpo.
O argentino também sacou muito bem o tempo todo e conseguiu neutralizar os slices venenosos de Federer, que por sua vez não conseguia baixar a bola como de praxe. O terceiro set foi um duelo bem mais mental, um teste à frieza dos dois. E por isso mesmo foi tão longe, porque ambos conseguiram sempre produzir um grande tênis na hora do aperto. Por detalhes, deu Federer, que reconheceu ter tido sorte.
Com uma torcida participante, Murray certamente surpreendeu Novak Djokovic com um tênis bem mais agressivo do que costuma mostrar contra o sérvio, lembrando o bom início que teve na decisão de Wimbledon de quatro semanas atrás. Aliás, essa postura, aliada a um controle de nervos e à euforia do público, são os ingredientes que podem lhe dar o ouro no domingo. Novamente seu problema será a consistência, porque a final será em melhor de cinco sets e aí o fantasma de Wimbledon e dos Slam têm mais espaço para aparecer.
Se Federer e Murray sonham tão ardentemente com o ouro, Serena e Sharapova fazem um duelo de força pura, duas jogadoras com personalidade forte, vasta experiência e uma inevitável rivalidade. Tal qual o suíço, a medalha dourada de simples é o que falta à notável coleção da norte-americana. A musa russa tem ainda como objetivo a retomada da liderança do ranking. Saques pesados e devoluções arriscadas devem marcar a partida deste sábado, mostrando o que a grama tem de melhor. Será que enfim vai aparecer alguém para desafiar Serena?
Um século depois
Se Andy Murray é a esperança de acabar com o jejum de Wimbledon, que vem desde 1936, um eventual ouro olímpico remontará aos Jogos de 1908, últimos a ver um tenista britânico a colocar a medalha de ouro no pescoço. Naquela edição, houve dois torneios: um indoor, disputado em Queen's e vencido por Arthur Gore, e outro na antiga sede de Wimbledon, conquistado por Josiah Ritchie. Graças a esse passado do tênis amador sobre a grama, a Grã-Bretanha soma 47 medalhas nas Olimpíadas, muito mais que as 34 dos EUA.
Missão cumprida: o tênis empolga nas Olimpíadas
às
19h46 - por
José Nilton Dalcim
Três grandes favoritos no masculino, duas das três melhores jogadoras de grama no feminino, duplas espetaculares. O tênis cumpriu seu papel olímpico e atrai atenção, uma tarefa convenhamos muito difícil no meio da constelação que desfila dia a dia dentro e fora de tatames, quadras e piscinas.
Para minha (grata) surpresa, o tênis conseguiu até um lugar cativo na TV, outra concorrência duríssima de se ganhar, já que as Olimpíadas se dividem entre modalidades popularmente consagradas e aquelas que levantam grande curiosidade, sem falar nos imbatíveis esportes coletivos. Vai da força e técnica apurada do judô e do boxe à plasticidade encantadora da ginástica, mas também passa pela velocidade do badminton e o renovado tiro com arco, um exemplo genial de uma modalidade ameaçada, que soube mudar. Ficou bem interessante de se ver, fácil de acompanhar.
Pois o tênis está lána telinha. Dos jogos óbvios de Roger Federer e Novak Djokovic ao tênis feminino, com direito a vermos duplas e duplas mistas! A presença praticamente maciça das estrelas - só faltou mesmo o contundido Rafael Nadal - elevou o prestígio do tênis. Para quem acompanhou o quase descaso com que boa parte dos grandes tenistas viu a primeira participação, em Seul-1988, é legítimo afirmar que a batalha foi vencida.
A pontuação para o ranking, que passou a ser oferecida em 2000, foi o ingrediente final. Quem imaginaria que o número 1 do mundo, tanto do masculino como do feminino, pudesse estar em jogo em Londres? Uma feliz coincidência.
Pois será nesse clima que as semifinais acontecerão nesta sexta-feira. Se Roger Federer é favorito contra Juan Martin del Potro - menos pelo retrospecto de 12 a 2, mais pela quadra de grama -, Novak Djokovic e Andy Murray fazem um duelo para petrificar a torcida na Central. Qualquer resultado será excepcional, porque nenhum desses quatro esteve num final olímpica (só Roger foi campeão de duplas) e cada um representa algo muito importante para o esporte de seu país e para a história do tênis.
Da mesma forma, Serena Williams leva vantagem sobre Victoria Azarenka, pelos confrontos anteriores e pela recente vitória em Wimbledon, e Sharapova terá um duelo no mínimo curioso diante de Kirilento. A batalha das 'Marias' coloca em evidência o nacionalismo tão próprio dos Jogos, já que Sharapova jamais foi considerada uma autêntica russa (está desde os 5 anos na Flórida e mal fala a língua do pai). Tudo indica que vai dar um duelo direto de campeãs de Wimbledon e, se isso se confirmar, Sharapova poderá recuperar a ponta da tabela.
Até mesmo o torneio de duplas tem fortes atrações. Infelizmente, não teremos mais os mineiros - que foram brilhantes no torneio e merecem todos os aplausos - mas duas parcerias francesas contra os todo-poderosos Bryan, que lutam por aquela que pode ser a última chance do ouro olímpico. Já as Williams tentam o tri em duplas, que seria também o quarto ouro de Venus, um feito único no tênis e raro em muitas outras modalidades. E as mistas, que pareciam consolo, podem ser a redenção de Murray em parceria com a juvenil Laura Robson ou até mesmo a glória final do veterano Lleyton Hewitt.
Enfim, há emoções e feitos para todos os lados, de todos os tipos e gostos. Parabéns ao tênis.
Corrida do ouro
Dos países ainda envolvidos na luta pelo ouro, apenas Argentina, Sérvia, Belarus, Índia e Itália ainda não sentiram o gostinho no tênis. Os EUA já ganharam 17, os britânicos somaram 15 e os franceses, 5. Depois vêm África do Sul, com 3, e Alemanha, Rússa, Chile e Suíça, com dois. Espanha e Austrália faturaram uma.
Tensão e torcida olímpicas
às
17h29 - por
José Nilton Dalcim

Sets duros, viradas e decisões apertadas. A vida não está tão fácil para os grandes favoritos no torneio olímpico masculino como se imaginava quando aconteceu o sorteio da chave. Tensão olímpica? Tenho quase certeza que sim. Não se vê a rapaziada solta em quadra, como se todo mundo entrasse para as rodadas com a certeza de que não pode errar. Ou que perder um mero game de saque pode custar muito caro nesta melhor-de-três sobre a grama.
Roger Federer passou apuros no final do primeiro set contra Denis Istomin. Depois de abrir 3/0, permitiu reação e se viu 0-30 abaixo pouco antes de a chuva cair. E Novak Djokovic? Perder um set e passar tamanho sufoco diante do veterano Lleyton Hewitt, em que pese toda sua experiência sobre a grama, não estava na previsão. Os dois líderes do ranking, aliás, já estão fora das duplas, o que reforça o interesse em garantir uma medalha nas simples.
Andy Murray não ficou atrás. Também virou em cima de Marcos Baghdatis, mas nunca mostrou um jogo solto. Mesmo com uma quebra de vantagem no terceiro set, os games foram amarrados, tensos, muita troca de bola, alguma hesitação em arriscar algo de novo ou uma bola diferente. Longe daquele Murray da final de Wimbledon.
Isso indica possibilidade de zebras nas quartas de final desta quinta-feira? Federer será favorito, é claro, contra John Isner, assim como Murray diante de Nicolás Almagro. Difícil imaginar surpresas. Djokovic tem a tarefa mais difícil, já que pega o estiloso Jo-Wilfried Tsonga. Porém, o francês vem sofrendo rodada após rodada e só terá chances se conseguir evitar uma partida muito longa. Juan Martin del Potro ganhou uma boa expectativa com a queda de David Ferrer para Kei Nishikori, já que bateu o japonês com rapidez em Wimbledon.
As oitavas femininas também tiveram emoção. Não com Serena Williams ou Petra Kvitova, absolutas, mas com o sufoco de Maria Sharapova e as viradas de Victoria Azarenka. Ao final do dia, todas passaram. Especial destaque para Kim Clijsters, que desafia Sharapova com reais chances de marcar uma grande despedida das quadras europeias.
E enquanto todo mundo aí em cima se digladia, temos mais é que ficar de olho e de dedos cruzados. Os mineiros Bruno Soares e Marcelo Melo fazem uma campanha espetacular no torneio, derrubando Isner/Roddick e Berdych/Stepanek, num piso tão rápido como a grama. Já merecem um troféu por isso, mas o que todos queremos mesmo é chegar na disputa da medalha.
O obstáculo é gigantesco novamente: Tsonga/Llodra. Acho vou torcer muito para o francês vencer Nole em três intermináveis sets e assim perder fôlego e motivação para as duplas.
O grandão
Marcelo Melo, mais conhecido no tênis brasileiro como Girafa, comprova que é o melhor duplista brasileiro desde Cássio Motta/Carlos Kirmayr. O batalhador mineiro já esteve na final de mistas em Roland Garros, na semi de Wimbledon e nas quartas da Austrália, além de ter chegado ao 18º lugar do ranking e faturado nove ATPs. Só lhe falta mesmo classificar para o Finals de Londres. E quem sabe, um pódio olímpico.